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18.11.10

Os dois Manos

18 de Nobembre de 2010 - Nobenta anhos de bida muitas alegrias para mos dar: d'hoije nun anho Senhor Padre Zé
Augusto e Manuel eram dois irmãozinhos nascidos numa aldeia serrana. Rapazes como os demais da sua idade, viviam uma infância despreocupada, como os pardais na romaria, ou como as ervas do ribeiro. Dormiam de noite e sonhavam, brincavam e sonhavam de dia, excepto quando, por vezes, acordavam bruscamente para a dura realidade. Vida bem amarga. Tinham por dom o céu, uma mãe carinhosa, que os nimbava de beijos, mas também um pai que os enternecia dum amor violento, rude e autoritário com a estaca nodosa dum feijoal florido. Chefe e ditador da família, usava com os filhos a pedagogia herdada dos antigos, talvez dos velhos lusitanos. Assim precedia:! Nada de ternuras ou carícias. Nada de elogios. Poucas palavras, ordens secas, sem admitir desculpas “Nem mas” nem meio “mas”. Vais a correr e voltas a fugir. Ainda estás aí. Sempre a dormir! Brutos que nem portas. Não sei a quem saíram. Mais lorpas que aquele seu tio tonto que fugiu para Andaluzia. Não sentem cobiça para nada. E pela mínima falta zurzia neles como em centeio verde. O Augusto bem se lembra daquela vez: por causa dum passarinho encantador ia olhando e tropeçou. Tropeçou caiu e partiu a bilha junto da fonte, entre uns ramos secos. O pai tomou dum galho e deu-lhe tantas, tantas…ai Jesus. Parece que matava o garoto e não digo menos se a mãe, Ti’ Angelina, não acode a tempo a tirar-lho das mãos, daquelas mãozorras pesadas e calosas afeitas a britar pedra na mina dos Raposos. (Chamava-se Ti Domingos Mineiro)
– Deixa-me o rapaz – dizia ela – ainda os vais aleijar. Tens uns modos de bater. Deixa-o, já te disse. Oh raivas de homem este. E colocava-se no meio cobrindo o filho até passar a tempestade.
A mãe como que adivinhando dizia muitas vezes ao pequenos: – S’eu um dia vos vos venho a faltar, quem há-de cuidar de vós?
E aconteceu. Veio uma doença grave à Ti’ Angelina a que não resistiu. Os dois choraram ao princípio, mas em breve esqueceram aquele dia triste. Voltaram a dormir, sonhar e brincar. Brincavam um dia no ribeiro aos moinhos. Tinham, a seu modo, muitos sacos miúdos, feitos de pedra, junto dum cachão de escuma. Preparavam-se para os transportar no seu carro de lata que fazia um grande “chi-ó”, quando o pai os chamou com alta voz. Deixaram tudo e correram. Ti’ Domingos Mineiro que casara novamente quase em segredo, apresentou aos dois filhos outra mamã, desconhecida, que sorria para eles. Entretanto enchia-lhes os bolsos de confeitos.
Poderiam ter amor aquela nova mamã? Tivessem ou não, para eles pouco pouco importava contanto que, ao menos, lhes não batesse. Pancadaria de aquecer, já tinham que bastasse. Verdade seja dita que os garotos dos rapazes também faziam por merecer. Os títulos vulgares de piléus, lafraus calabreses ou escacha-pedras, se de todo os não mereciam, também por vezes não lhes assentavam.
Um dia chegaram com as calças rotas de andar aos ninhos enquanto as vacas andavam aos pães por onde lhes apetecia. Descuidados da vida iam-se para as penhas a deixar-se escorregar ou como dizem resgalgar. Saltavam os silvados e os ribeiros. Encabriolavam-se nos muros. Balançavam-se nas ramagens. Magoavam-se pintavam... a canastra.
– Ai se o pai o sabe.
– Tu não digas nada.
Em casa, sentiam-se presos, falavam pouco e baixo, monossilabicamente. Nos campos, consideravam-se livres e senhores. Procuravam a jolda. Expandiam-se em termos que lhes acudiam a boca, às vezes, atrevidos e de que nem sempre suspeitavam o sentido.
– Tu não digas nada! Olha que se o pai sabe!...
Mas Ti’ Domingos veio a saber muita coisa… e nem tudo. Ele que também de língua não fora circunciso, não tolera atrevimentos. De pequenino se troce o pepino e os maus rebentos.
Naquela tarde, ao chegar do trabalho, resfolegando, toma o soveio do carro e chama os dois para o quarto de dentro que obedeceram a tremer e chorar, sabendo de antemão aquilo que os esperava. Passou-lhes pela mente o pensamento da mãe, que Deus perdoe, tão carinhosa e compassiva. Ah! Se alguém os viesse libertar naquele aperto! A madrasta, essa não, não possuía entranhas de mãe; por isso nada havia a esperar dela! A nova mamã, não fazia caso, não se importava dos seus choros aflitos, não se confrangia dos soluços sufocados, ao compasso de golpes que começavam de estalar, tremendos, como tempestade que tomba.
– Deixai que eu vos ensino! Nem um pio, já disse! Nem um soluço. Malandros. Ides aprender. Tomai outra vez… que vos prendo daquela viga! Haveis de ver…daquela viga se não tomardes cuidadado!
E tomaram, olé, se eles eram rapazes… de pés no chão e cabeça na lua! Tinham de pagar caro o tributo (o tributo) da idade, idade inexperiente pela qual todos nós passamos…se procuram recordar-se.
– Ai se o pai o sabe, é que são elas.
– Desta vez mata-nos. Ao Manuel, mais novo já lhe parecia ver a figura do pai alto magro e seco, cabelo em desalinho, olhos em chama, cordoveias inchadas de cólera, soveio na mão, dentes semi-serrados: em volta, o ar torvo, depois a terrifica viga, a viga da cumeeira… fuliginosa.
– Anda cá, anda cá.
Augusto sentia o coração golpear no peito quase à boca da garganta: anda cá, anda cá. As pernas flácidas recusavam-se a entrar em casa. Por três vezes tentou… ouviu vociferar lá dentro e correu a esconder-se. Chamou o irmão que espreitasse e entrasse em casa pela janela das traseiras, agora mesmo que a madrasta foi à frente e o pai saiu com o picão. – Mas não faças barulho.
Foram-se esconder numa vinha, amarados à terra, que ninguém os visse. Cochichavam, à espaços, baixinho. Uma torda pedresa, veio poisar na sebe, ali perto, sem saber indiscreta. Augusto pegou num torrão para lhe atirar.
Depois esgarçou uma verjôntea tenra de videira, deu metade ao irmão, tiram-lhe a casca e começaram a saboreá-la com muitas caramunhas por causa da acidez. Olhavam-se mutuamente.
Seria engraçado se… mas naquelas circunstancias… pisavam o risco e a demora nele, cada minuto, votava contra. – Voltar, não voltar? E agora? Eles já sabem tudo! De certeza.
– Para casa não! Para onde?
Anda cá! Anda cá! Lembra-se quase ao mesmo tempo, de ter ouvido falar dum tio que tinham em Sevilha, irmão da falecida mãe, tão carinhosa! E por isso também, como ela, o tio havia de ter bom coração, de certeza! Mas tão longe.
– Nem por isso! Eu a pé em dois dias era capaz de lá chegar.
– E sabes o caminho?
– Não tem nada que saber, por ali pela serra – e apontava o norte. Atravessa-se a fronteira. Depois pergunta-se: é acerca!
– Vamos lá? – Vamos! – Mas se o pai descobre.
– Não se diz nada a ninguém.
– Em estando com o tio, ele defende-nos.
Anda cá! Anda cá – pulsava o coração na garganta e nos ouvidos.
Tombou a noite silenciosa, povoada de mistérios. Na casa do Ti’ Domingos arde um candeeiro de azeite sobre o limiar da porta. Á luz bruxuleante entrevê-se do postigo uma mesa tosca com quatro malgas de caldo que arrefece!
Espera que espera e eles não aparecem
– Onde se terão metidos esses tunantes? Que sova, que sova vão apanhar.
Nas casas dos vizinhos já não se fala de outra coisa à hora da ceia, quando se resumem os factos da jornada.
– Amontoaram! Diz-se que… é o tema obrigatório da conversa.
– Têm-nas feito bonitas.
– Mas também levam coça.
– Não é com muita pancada que se endireitam. Eu nunca toquei nos meus e eles bem se criaram. O pai impertinente faz o filho desobediente.
– Mas também não é com o galardão, deixando-lhes fazer todas as vontades!
Alguém que passa na rua pergunta.
– O Ti’ Domingos, então os vossos filhos ainda não apareceram?
– Vão apanhar uma tapona. Só me fazem arreliar. Roem-me os fígados.
– Não lhe deveis bater. Se não agarram medo e ainda é pior.
– Eu já só os queria ver em casa! Já vejo que bater não adianta. Tanto eu queria faze-los uns homens!
– Não se terão escondido no palheiro! Quem sabe … caído nalgum poço, na ribeira… o burburinho aumenta e faz sensação naquele após-ceia. Nas casas dos parentes ou vizinhos não se encontram. Juntou-se muita gente. Resolveram tocar os sinos a rebate, correr os campos com lampiões. Disparar tiros no ar, não tivessem adormecido, por aí, por esses barrancos, debaixo dos freixos ou castanheiros. No dia seguinte de manhã assomaram-se outra vez às minas e poços, furnas, matagais. Nada! Passou um dia, uma semana. Passaram meses. Ti’ Domingos, já de luto, continuava a procurar pelas minas, devesas, povoações vizinhas, tapadas, barrancos.
Fez promessas a todos os anos, aos santos à Senhora da Luz e do Livramento, a Santo António e S. Ciriaco. Mandou rezar missas!
Deixou crescer a barba, pôs gorjete preta e uma gorra de viseira caída na testa a cobrir as rugas.
Assim o vejo passar todos os dias a caminho da mina. Fala pouco e não sabe rir.
Muitos anos passaram. Quantos não sei. Certa manhã, a mulher do Ti’ Domingos, ao levantar-se muito cedo, viu dois vultos, a dormir no curral, cobertos com uma manta. Supôs tratar-se de pastores ou contrabandistas e não quis acordá-los. Passadas duas horas voltou e encontrou-os ainda dormindo.
– Pastores, levantai-vos, que são horas de soltar os rebanhos. Vamos, e dizendo isto descobriu-lhes o rosto. Pareceu-lhe… O coração deu-lhe um baque. Augusto, Manuel, sereis vós? Os meus filhos que voltaram, que julgava perdidos. Ai os meus filhos!...
Os dois mocetões, já de buço a pontear, sentiram um frenesim.
– Não quereis ver como os meus filhos voltaram. E que mocetões estão. Oh pobrezinhos todos esfarrapados, quanto sofreram por esses caminhos do mundo! ...
Ti’ Domingos alvoroçado com os gritos da mulher, aquela hora, levantou-se à pressa da lareira e abre a porta. Houve um momento de pausa. Depois estendeu os braços e exclamou com voz embargada: – Meus Filhos! E imprimiu um beijo na fronte de cada um, único, tão bem impresso que eles jamais, olvidarão o primeiro que guardaram de cor.

Padre Zé, Porto 20 de Novembro de 1961

4.11.10

Los triteiros

Cuonta salida no Jornal Nordeste de 28 de Outubre de 2010
Chegórun un die los triteiros a Cicuiro. Trazien un martielho i ua sartián, batien neilha i dában la buolta al lhugar para fazer propaganda. Habien pedido un curral para atuar i fui-les dado l de la Tie Fona (l curral de Tiu Bara, ambaixo de la eigreija) i alhá íban fazendo propaganda. You i miu armano bien mirábamos para miu pai mas nun teniemos coraige de l pedir. Al fin de cena dixo assi el:
- se quereis ir a ber los triteiros anchi las gorras de patatas i ide.
Nós, cumo denheiro naquel tiempo nun habie, alhá fumos adreitos al curral para ber los artistas, mas la mulhier de l triteiro dixo que patatas yá tenie muitas i nun mos deixou antrar. Quedemos eilhi a la puorta a espera. Antrórun alguns que tenien denheiro, cumo Tiu Donis Marcos (que se morriu no die de la boda de tie Sabel Pedrica quando botaba uns foguetes … rebentou-le na mano, amalingrou-se … desso se fui) i nós nada. Fumos para casa, alhá habie ua fogaça de centeno anriba la mesa tapada cua toalha de lhino. Nuossos pais yá estában deitados, miu armano más nuobo que you, cul faco cortou un cacho, apuis you cortei outro i alhá tornemos nós cul pan a tener cun la tie de l triteiro. La mulhier mirou pal pan que nós lhebábamos i pal denheiro que eilha tenie, agarrou-lo i dixo: - antrai!
Antremos. A la punta de baixo de l curral habie un grande munton de estierco yá furmentado, l estierco tamien furmenta quando bien feito, tem un cheiro acidulado caratelístico. L furmiento fai calor, l curral tenie un calor moderado cun sou cheiro próprio. Los lhabradores yá están aquestumados, nun estranhában. Los romanos até tenien na sue relegion un Dius Estercorário. Eilhi estaba resguardado por palos, tabras i galhas adonde las personas se íban aquemodando los que antraban a espera que ampeçasse. Por fin antrou l triteiro i dixo:
- you preciso duns rapazes! quien me ajuda? Ben acá, tu que antreste sien pagar, dixo para mi. You habie pagago mas sien denheiro, era solo troca de predutos porque denheiro nun habie.
- Ben, ajuda-me a fazer l que seia preciso i you mandar.
Saltei para alhá.
- Bamos a quemer este jornal! Coraige, mas cuidado! sien lo angulhir.
Atirei-me al jornal por ua punta i el por outra. Faziemos que quemiemos i apuis atirábamos fuora.
- Catanxo! Pareces un lhambon, tu sabes lo que comiste? Este jornal estaba ambenenado. Agora tenemos que tirar l beneno.
Miu armano, dous anhos i meio más nuobo que you, quando oubiu que aquilho estaba ambenenado ampeçou a chorar:
- Ai! Ai! miu armano nó! You nun quiero que se muorra, ai ai que inda se bai a morrer.
You, todo calmo porque sabie que nun era sério, sabie que era ua tramóia. Los que estában alhá rírun-se cun miu armano i dezien que el era l que más fazie rir. Mandórun-lo calhar.
- El está ambenenado mas nun se bai a morrer, dixo l triteiro.
Miu armano, cun cinco anhos i meio, nun defrenciaba l que era de beras ou a representar.
- Quieres que te tire l beneno José? Anton bira l culo pa la giente para que eilhes beian salir l beneno.
Dou-me un copo de auga a beber, you bebi i apuis cul funil na parte de trás de las nalgas apanhou ua auga amarielha para outro copo. Alhebantou alto i todo mundo batiu palmas, l beneno habie salido i miu armano parou de chorar.
Chamou outros rapazes i dixo para tiráren las gorras que puso colgados nun cordel. Quando puso l último caírun-se todos.
- Deixai-los cair, dixo l triteiro.
Passado más un cachico i apuis de fazer uas gigajogas dixo:
- Agarrai-los i esfregai-los na cara cumo you fago!
Esfregórun i quanto más esfregában bás anfarruscados de carbon quedában. Risada giral de doler la barriga!
Apuis dun espetáclo de robertos que fazírun rir i ancantar todo mundo, alhá acabou más un serano i l miu purmeiro die de magie a troco dun carolo de centeno.

Cuonta ditada pul Padre Zé, dando fé de sous tiempos de nino.

14.10.10

Padre Zé - Al correr de la bida III

Mie prima Bárbela - cuonta passada na era de 1928 no termo de Cicuiro

Un die estábamos a la selombra dun uolmo al pie de las nuossas casas i eilha tenerá chamado madrina a mie mai. you nun gustei, aterei-le ua lapada i deixei-le ua marca na cara. Ralhórun-me muito i unca más me anraibei cun eilha ...
Outra  beç, teneriemos por ende uito anhos, andábamos cul ganado de los pais deilha, tie Marie Teresa, mulhier de tiu Antonho Pequeinho, deixórun-mos solos todo l die i toda la nuite no Cerrado de Mingç i nun teniemos miedo. Cun nós andában dous perros, l Turco, de carrancas afiladas al cachaço, i la Raposa, nós dous achegadicos na cabanha anroscados a la manta anriba de l cuolmo que fazie de xerga i los perros al redor.
De bien ninos mos botában pul termo i pul mundo!

22.9.10

Miranda

Ua cuonta de l Padre Zé, dezida, i bien, por Duarte Martins no die de la Lhéngua Mirandesa l die dezassiete deste més.

... Einemitable tue pacéncia!
Lhougo quien sós tu? Feia, fuorte i afamada?
Fuorte! Afamada! I feia!
Ye guapo l tou deber!

21.5.10

A las áugas!!

A las áugas, a las áugas, a las ááááugas!
Bai a correr giente apressiada naqueilha direçon bozeando a boca chena este grito.
- Miu Dius andará d’algua casa a arder? Pergunta-le d'adonde ben l fuogo!
Las bozes crecen de todos ls lhados, esparige-se, acorda ls bezinos de la mardomia de la séstia, cul rechino de l sol!
A las áugas, a las áugas!
Dezirie-se que l fuogo pegou de l cielo de l braseiro ampiedoso de l sol molestador que sorbiu las fuontes naquel fin de berano i parece querer calcinar ls que bíben na tierra i até, las piedras. Cumo eilhas chiçpan! Ls xeixos queiman! Arden las arenas!
Júlio secou ls rieiros; Agosto las fuontes; Setembro ls poços, rius i montes.
A las áugas, a las áugas, a las áugas!
No azul bacento, mesmo para acolhouca suobre ls montes, gordos bleinhos de fumo anobielhan-se no aire a modo de rocos einormes, medrando assustadores, ancarramelados.
Yá ancúbren l sol de anubrado negro. Las campanas tocan a rebate i las bozes de ls homes, ties i garotos, ambuolben-se al trompetear de l campanairo, chamando ls sous filhos.
Todos a las áugas! A las áugas que arden ls montes.
Cherrincában las puortas, chocálhan lhatas i caldeiros relhuzen ls filos afilados de las machadas.
Ls uolhos ansiantes craban-se no hourizonte adonde crece, abançando la scuridon i por baixo deilha retomba la boç de alerta.
A las áugas. Todos a las áugas! Al fuogo! Alhá, alhá se amostra l que puoden las chamas. A eilhas!
Mas quien eirá rejistir a la fuorça de las lhénguas burmeilhas que atiçadas de l aire, se anroscan nos Cousses, chubírun a la romarie nun abraço sfamiado, assucando un rastro de muorte desolaçon i negrura? Cumo l home se sinte pequeinho. Lhinha eirresistible de tragédia, essa que abança d’algeira, majestosa, cumo serpiente tenhida de cinta la raposa i las siete cores bibas, cuçpindo rábias fumegantes que apestan ls aires dun oulor agre atafanhante!
Eipopeia de l fuogo! Sublime i hourrible.
Quien l eirá a rejistir?
Cruzar ls braços, nó!
Ls de más coraige rebézan-se na lhuita de cortar trampos berdes. Cun essa arma fai-se un eisército an cordon que abança an lhinha, siempre cumpassiado çcargando golpes seguidos na munstruosa queluobra!
Lhuita de gigantes. Cobrada la espina eilha spurmenta inda alborear-se an retorcidos mas la cadena de galhas lhougo murchas i lhougo repuostas bai le apeando l ambibecer.
Coneilhos i lhiebres assustados saltan donde a donde la barranca i perden-se nas gorjas escuras, facinante, tragados de las chamas.
Mas quien tenerá ampeçado semelhante calamidade?
Hourroroso!
I se l aire rebolbendo la atirar suobre ls lhugares? Quien l scapará?
Homes amprudientes que jogan cul fuogo nestes meses an que arden las arenas i ls caminos solo merecien la forca naquel carbalho. Apunta!
Mirai cume se chiçca spetacular. Eilhi, ou no einfierno debie de se atar l respunsable.
A golpes de coraige, por fin, ls homes mangórun. Ningun faltou de cada casa naqueilha lhuita. Çpejou-se auga nos cepos a fumegar i ampeçou la pándiga de la busca al coneilho assado. Ua cuonta a más na bida a guardar de cada un.
A la tardechica outra beç las campanas i las bozes de las personas cháman:
A las áugas! A las áugas!
L fuogo i l aire, armanados, sacudida la mortalha de cinza, ambibecírun.
Yá naide ls adomina. Quatro lhugares an peligro.
Mas quien tenerá sido l chabasquito? Repergunta-se! Quien?
Dai-mos un caldeiron de azeite para ferber eiqui yá l creminoso.
Dezi quien fui.
Marmuriaba-se a boca pequeinha que Tiu Manuol Mangancha, pula manhana, habie feito lhume naquel sítio para tostar ua guelhada. Tornou a meio die cun eilha al ombro nuoba an fuolha, çcascada, dzampenada i donzel. Muitos l bírun a passar.
Ora Tiu Mangancha era un probe diabro sien tener adonde cair muorto que nada tenie de sou más que ua baca fraquita, ua perra sfameada i un palheiro terreiro para morrer ls trés. Amigos ninguns. Defesa solo la guelhada maldita i agora preciosa. Bibiu siempre solo. Amisades, nien cuntar cun eilhas. Probe de quien ye probe!
Dzarmado i einofensibo, axagado, acarreou más estas rábias a la caduca belheç.
Adonde se esconde? Que nun aparece?
Tiu Mangancha tubo la prudéncia ou l miedo de se saber zbiar.
Cunsuolo tamien saber que ningun de ls bezinos l atraiçonou.
Tiu Mangancha lie a menudo ls eibangeilhos, anquanto guardaba la baquita i se nun ls praticaba, al menos falaba neilhes.
Ls bezinos, al robés nun lien, ralos sabien ler, mas por cierto, ls soubírun praticar an parte, cuntentando-se de poner nel la lhéngua i nó la cuorda.
Que grande çcampado de hourrores nesses matagales! Un mapa negro!.. de hourrores!
An buona hora ls lhugares se salbórun, cousas, animales i personas nun passórun peligros! Mas l chiçcador, que se libre! De la sanha! Será rejado bibo nun caldeiron.
L bielho negou-se siempre, resguardando-se, ancolhindo ls ombros, nun deixou çcoser ls lábios: nun sei! Nun sei!
Juntos na zgrácia ls moradores de ls lhugares, mirando las touças ardidas, dantes chenas de fuorça, sentírun lhágrimas purmeiro, apuis aquemodórun-se i, de seguida arregalórun ls uolhos cobiçosos a las tierras znudas, negras, cinzentas.
Rumpírun las tierras para le sentir l coraçon a bater. I ampeçórun a amar la barriga de la tierra cun ánsias de bida.
Dai-mos bida nuoba – suspirában cul coraçon a bater fuorte.
Çcobierta dun suonho.
Caírun nel las purmeiras augas! Bieno l Outonho!
Ls lhabradores namorados i agoniados de l alberoto, atirórun al bientre de l stierco l trigo a manos chenas que lhougo acubrírun cun dedicaçon.
Á! Belheza i floracion. Las senaras fazírun óndias al aire, aquel aire que atiçou l fuogo. Esparige-se no aire un oulor a pan i un agarimo suable i fuorte.
Aton ls bruticos bezinos de las aldés pedien an gordas bozes eimocionadas que querien a Tiu Mangancha: querien lo ber i abraçar, beijar, agradecer a el que nunca tubo l alisar dun agarimo. I cumo paga querien le trazer ua cuba d’azeite para le dar, para que biba i coma i tenga salude i anhos de fartura i alegrie aquel que transformou un monte escuso, nua tulha de pan! Milagre! Milagre!
Feliç çcuido!
Ningun santo até eilhi se tie acordado.

José Francisco Fernandes – Padre Zé
10 de Janeiro de 1962

30.4.10

La Mona l Maio III

...cuntinuaçon...
Manhana cedo, bénen pa la ruga a spreitar.
- Mira! Alhá stá, alhá riba, no uolmo más alto! Era eilha cun muitas rendas, sbolaciando, al aire. Nas medidas, sien tirar nien poner, eigualaba a Zulmira. Ampeçórun a boziá-le:
- Ei! Á Mona de l Maio! Ei! Ls dous armanos adbertien-se, de beras, scuitando la sue própia boç. I tornában: - Mona! Á Mona de l Maio! Á garota! Que fazes ende? Bén acá para baixo. Toma! – Mandában-le un beijo nos dedos juntos! Mira! Nun quieres?
- Fazien-le ua perrada cula mano!. Íban i tornában.
- Anton nun oubes? Adius!
Passados dous dies, fizo-se la fiesta de N. Senhora de fin de Berano. Ls dançadores corrírun las puortas de las casas botando un lhaço para sacar smola, cumo dezien. Chegados a la de tie Andeza, que tenie l sou tiu eimigrado na Argentina, an atençon rezórun un padre Nosso para que tornasse de brebe i sacórun, ou ansacórun un alqueire.
Nas casas ricas beilában las “rosas” i la “bicha” cun castanhuolas, al redor de l alqueire aquegulhado i anramado i, saltában por fin, “l castielho”. Pul camino ponien l chapéu de fitas na cabeça de quien passaba para l deixar más lebe la jabeira i sacar ajudas.
Que guapo i antolhado chapéu, guapas gualdrapas i lhenços i ramos i fitas, abanando, quien ls anfitou? Que dedos milagrosos, cun tanta purfeiçon?
L tamboril, tocando, arrimou-se … donde a donde un stouro de foguete. Manolico cun letcidade no cuorpo, assigura-se bien cuntando ls stouros (que nun le rebenten na mano) çprende-se atrás de la canha. Que l’amporta la roupa nuoba i la armanica naquel die? Cuorre pulas paredes i ls telhados. Oustenta un manolho deilhas, pa ls subiotes de Natal que ha de fazer culas sues manos.
Esto si que ye fiesta.
Alhá riba, amouchada de rendas, jabeira de seda na mano, la mona de l Maio quedaba cuntenta solo de ber. Bie passar ambaixo la prociçon coudalosa, ls dançadores de castanhuolas, lhebando ls andores de la Senhora i de l Menino, balanciando cumpassos an óndias, quaije beilando. Alantre l pendon. No fecho la gaita de fuolhes, l home de la fraita i tamboril. Dançadores no sagrado! No fin de la funcion!
- Cuidado cun ls palos! Palo falhado, cabeça rachada – acunselhaba un dançador bielho de papo cheno.
- Tenei bós más cuidado culs pratos de arroç-doce que naide bos ls quebra. L remoque fizo saltar la risa i quando este acabou l sinal tenie ampeçado. Tiro-la-ta-ri-to-tin, tan! Dalgun más bielho relhembrando soudades, pedie permisson para rendir un dançador na parte por el sabida. Si que dantre las miles de cumbinaçones possibles, cada cual sabe la sue i solo la sue parte. Rábias de l diabo se iou cumprendo este androminar de palos que se cruzan i outros até se parten!
Naqueilha nuite, la mona cun grande nobidade de todos dzaparciu de l uolmo, misteriosamiente: saltou!
Soubo-se más tarde que fura roubada por uns moços angraciados perruchos de l lhugar bezino de Alhá-de-la-Touça.
Manolico i Zulmira, al ir a dá-le ls buonos dies de l questume dórun cula bara sola, tesa, sclamatiba.
Yá nun dezírun: “mona de l Maio” baixa parqui, mas si: áá!... á nina para donde fuste? Nun lhebórun a bien ls de Fuonte-Frie cumo nun podie deixar de ser, que ls moços de Alhá-de-la-Touça les roubássen la mona de l Maio. Era ua spéce de caçoada, fazendo pouco de l lhugar pul que las relaçones antre ls dous lhugares quedórun amonadas. Que mal l tenie feito? Quien scapaba cula mona de l Maio debie tener un sentimiento reles! Capaç de… si nun staba cierto, mas que fazer?
Ls de Alhá-de-la-Touça eran más, l lhugar más rico, más … çcarado, reles! Por fin la cuncéncia mordiu-les, passado meio anho, i tornórun a mandar la mona. Rota ambergonhada i feia que nien se deixou ber. Rodrou l tiempo. Agora todo çqueciu. I más. Passados binte anhos, bieno un moço de ls más guapos de Alhá-de-la-Touça i lhebou tamien a Zulmira an casamento cun grandes bodas i fiestas i las aquestumadas corridas de rosca. I más ua beç lhebórun la rosca tamien.
Manolico casou-se pouco aspuis para Spanha i deixou la tierra. “Probe tierra” malincólica antre uolmos i choupos, i ls brimaleiros debruçados a la borda dun ribeirico marmoriante, serpenteante, que solo esses nun se scápan i son siempre ls mesmos. Agora ls dous armanos, para dáren presentes un al outro i a ls sobrinos, precisian licenças.
Solo las almas quedórun juntas, nun se apartan, nun ténen frunteiras.

José Francisco Fernandes - Padre Zé

01 de Deziembre de 1961

29.4.10

La Mona l Maio II

...cuntinuaçon...

L purmeiro lhaço al son de tamboril i gaita cantában assi:

Jasus miu, Jasus Cristo
Dius i home berdadeiro
Criador e redentor
Salbador de l mundo anteiro,
A Ti dedicamos
Este lhaço purmeiro
An nome de l Pai, amén
I de outros dous tamien.

Segui-se lhougo l “binte cinco de ruoda” i l “binte cinco abierto”, dous lhaços birils, decedidos capazes de cansar ls más pintados dançadores. Bieno apuis la “yerba”, lhaço pequeinho mas custoso an que ls guias precisian de muita i sabida ginástica, i de poular a sério para nun perder un pique. Scuita:

Se quieres que te segue la yerba
Trai-me la gadanha
Cula tue piedra
Para aguçar
Trai-me l carro
Pa l cargar
Que segada stá
Que segada stá.

Seguiran-se apuis outros cumo la “anramada” la “lhiebre”, la “carmela”, poema dedicado a la Birge, tan sublime cumo custoso, i al final “ls quatro oufícios”, oureginal i angraciado, pa ls garoticos ríren. Digo por fin, porque Tiu Tamboriteiro negou-se a acumpanhar “la pomienta”; alhá sabie porquei e mesmo l títalo nun çfraçaba!... i bonda home sério, fazírun-le la buntade. Acabou.
- Bamos-mos! Fizo Manolico.
- I la mona?
Zulmira, que an todo l tiempo nun çprendira ls uolhos de ls dançadores, tamien de la mona, muito menos, çpregou l pensamiento.
- La mona, quiero ber la “mona de l Maio”
- Nun podemos.
- Porquei?
- Agora ls dançadores stan cansados i ban a quemer las sardinas i l arroç-doce. Apuis de la meia-nuite, alboran la mona, para naide ber. Agora nun deixan.
- Aton bamos-mos.
Pul scuro de la nuite i al strelhumbre de las streilhas, Manolico iba assobiando i cantando ls lhaços que habie daprandido… la letra i música que las buoltas i piques esses!... quien atina cun eilhes?
... ten cuntinuaçon ...

José Francisco Fernandes - Padre Zé
01 de Deziembre de 1961

La Mona l Maio

Manolico tenie ua armanica más nuoba que el tan guicha i tan alegre cumo l sol de Maio. Habie nacido an berdade naquel més quando la naturaleza se cubre de froles; más un boton a quien ponírun l nome einesquecible de Zulmira. Zulmira parecie querer dezir: mirai pal cielo, mas Manolico, para sentir satisfaçon bastaba mirar l rostro de la armana, morena de uolhos lhimpicos, quelor de café amuldorados an farta madeixa, rúbia, ancaracolado. Andaban juntos i, l más de las bezes morában… a ls burricos. Manolico fazie-se de burro i la armanica, de cabalheira, solo repetie: - “arre burrico, pal molinico”. Nun se sabe qual de ls dous más se adbertie. A bezes anraibában-se, ye natural i Zulmira fazie cara de mona cun uns uolhos!... Anton Manolico, chamaba-le a spicaçá-la, Mona de l Maio. Mira la Mona.
- Nun quiero saber, dezie eilha, i batie l pie.
Aquel nun quiero era dito cun tal assento que bien se bie que Zulmira tenie, ua catadura, buntade fuorte i quaije eirresistible. Quando dezie: quiero, querie mesmo! I era neçairo, a las bezes, para haber sossego respeitar la real gana de la Senhora D. Mona. Manuel, al cuntrairo, deixaba-se ir cun facelidade i pagaba-se solo, de le chamar pula ultima beç: mona! Mas a la cautela.
Cuntinaban anton, a brincar. Para esso bibien para esso eisistien. Mas al fin, eilha curjidosa, siempre quijo preguntar quien era essa “mona de l Maio”.
- Ua garotica que saliu de casa por ser mala. Mas houmildou-se i chorou tanto, tanto que quando tornou parecie feia. Eilha pormetiu ser buona, i outra beç se quedou guapa.
La armana sunrie.
- Agora, todos ls anhos ls dançadores l fázen ua fiesta i pónen-la an riba dun uolmo, para ser bista de toda la giente, la nina guapa, mona de l Maio.
- I quando fázen la fiesta?
- No fin de berano. Ls dançadores, yá se andan a ansaiar.
- I nós nun podemos ir a bé-los?
- Nun deixan. Solo na quinta de sardinas, quando “alboran” la “mona de l Maio”.
- Quien son ls dançadores?
- Ls moços!
- I quantos?
- Uito. Cuatro guias i cuatro peones. Forman assi meia dança, an dues carreiras. Ls guias alinhan, dun lhado i de l outro, nas puntas, i apuis un deilhes salta l “castielho”.
De nuite, al serano, oubírun-se ls dançadores ansaiando ls palos, picando ou cruzando, cunsante, nun andamiento cumpassiado, seco, marcial. Bulhie no sangre, i parecie que la “quinta de sardinas” nun más chegaba.
Bieno an fin. A la nuite, fizo-se l purmeiro ansaio pal pobo, a la lhuç de lampiones, no terreiro, al pie de la casa de l mardomo. Las mardomas, por dar las últimas demanos, an segredo a la mona de l Maio, nun aparcírun.
No purmeiro bleinho de giente, a la ruodra, bie-se Manolico cula armana a las carranchinas, cun todo l natural. Eilha cuntenta batie las pequeinhas palmas.
- Tate! Bai ampeçar.

... ten cuntinuaçon ...

José Francisco Fernandes - Padre Zé
01 de Deziembre de 1961

25.4.10

Miranda III

... cuntinuaçon ...

Bamos, bejitar la cidade.
- Esta ye la famosa ruga de la Costanielha – apuntaba miu tiu que mos acumpanhou, aquel que trabalhaba na “repartiçon”.
Eiqui pára muita giente a admirar, giente granuda de Baixo, de ls lados de l Porto i Lisboua. Mirai eiqui reparai naqueilha figura na jinela, stais a ber? – andicaba un oulhal. A que s’asparece?
Baixando un cachico la boç spremiu l sentido: diç que stá a arrear l calhau… cuontra Spanha. Cousas de l tiempo! A bien dezir la ruga mira acuontra Spanha.
Rimos-mos.
Reparei no nome dessa ruga. Eilhi hai ua anscriçon amportante!
- Ruga de l Teniente Valadim!
- Nun será l de la Guarda republicana que stá no cumbento? – preguntou Ferraç!
- Ou de la Guarda Fiscal!
???
Paremos no lhargo de la Sé que se alhebantaba maciça a la nuossa frente, respeitosa cumo un dogma. L guia sclareciu-mos que staba cunstruida na stilo renacença posterio, i todos cuncurdemos.
L pai de Ferraç chamou inda la atençon para aqueilha piedra suolta no alto de la torre naciente. Eilhi stourou la bomba dun canhon, por esso la piedra recibe ourdenado.
Assi iou ganhasse cumo eilha.
Nessa mesma data ls spanholes derribórun l castielho mas ls nuossos amostrórun-se balientes porque, dezie l chefe que, solo, un muorto chegou para cuatro bibos.
Transpunimos l portal.
Ls nuossos uolhos quedórun presos dun zlumbramiento nunca bido ou sonhado.
La Sé, la magestosa Sé, que ralas bezes se anchiu, abriemos de drento, l lhaberinto de las nabes oupolentas, anleadas de quelunas.
De la croç lhatina, de l presbitério, manaba ua claréncia fuorte até se zbalir na meia lhuç.
- Mirai las figuras an relebo de l altar-mor, tantas i parecen bibas, parecen falar.
- Mirai ls cadeirales, l altar dourado, aqueilha pintura.
- L Nino Jasus de la Cartolica! Todo amproado!
Arrimei-me. Tantos faticos que el tem, jaquetas de bárias quelores i çapaticos.
- Tamien ganha denheiro por ser un de ls mandantes acá de la cidade! Ls nuossos parabienes. Adius Nino Jasus, queremos, melhor pedimos, que mandes anhos buonos cun muitos fruitos i poucas décimas i nun mandes raposas a ls studantes, cumo l passou eiqui al nuosso amigo! Adonde stá?
Al salir de la nabe central demos de repente culs uolhos na carranca de la Sé i más se me aclareou la lhembrança de Matracas sbugalhando lhágrimas nas cuostas de l coreto.
Aqueilha bision alumiou-me l mil passado sbcunciente cumo se l tubisse atrabessado un claron.
De berdade an nino iou tamien chorei muito.
La mie prima dezie cun cierta eironia que iou tenie l curaçon mui tienro. Miu primo falaba graciando que iou trazie l coraçon nas gorjas! Al pie de la boca.
Mie tie al robés: chora, chora más! Ai que cara tan guapa tu pones, pareces mesmo la “carranca de la Sé”.
Iou miraba-la mui admirado cuns uolhos de de bidro i paraba mesmo a pensar na carranca.
- Chora, chora más – pedie eilha. Hás de me anchir la concha de la mano. Que guapa carranca de la Sé! Eilha tornaba i ou porfiaba, calhando-me que nun le farie la buntade i era anton mesmo que la fazie.
A abaluar por aqueilha cabeçorra de mostrengo que sobrepassaba la puorta de antrada i se tuorce i geme, heircúlea, apertando ls musclos de la cara, para aguantar suobre l quegote todo l peso de l uorgano, uolhos zgazeados, caneiros apuntando de cada lhado de la penca, cara arrepuxada, feia catadura; a abaluar por eilha quien nun scunderie ua tremura de quaije hourror, buscando scunder-se? Fugir? Mudar?
Feia na berdade, mas l que admira ye que la afamada carranca no fin de cuontas mos prendiu i facinou más que l própiuo Nino Jasus de la Cartolica, de cara tierna i serena. Bai-se alhá cumprender la nuossa psicologie de garotos! Quien quejir que mos stude i faga un buono eisame.
Guapo-feio, carranca, á home dexa-mos salir. Dás licéncia?
Queremos inda bejitar ls sborrelhados de l paço de l bispo que tenie tantas jinelas, tantas cumo dies tem l anho.
Agora solo se amostran ls arcos agachados i piedras suoltas picadas – seinha eiloquente daqueilha que chamamos Miranda.
Las piedras drumen un suonho prefundo i la lhama presa aguarda, sonhando, ls clarins dun clarear i un sol de redençon.
Cierta manhana la princesa de l Douro acordou rebigorada, ancaminou-se eilhi, abaixo a la corriente de las augas, batiu cula bara de cundon i mandou:
- Alto! Senhor cabalheiro, abintureiro de las Spanhas, miu D. Quexote de triste figura, que nunca faziste nada de grande nestas andanças, pus queda sabendo que iou sou Dulcineia ancantada, la cidade mendinha, prisioneira de l Frezno, mas agora bou-te a tapar la passaige. Tu bás a defender la mie honra i l nome; quiero ser rainha.
Dzde aquel die la cidade mendinha partiu la muralha de cintura, que la sganaba cumo un colete de fuorças, abaixo al riu casou-se cul Douro, ampeçou ua bida nuoba tornando-se capital de la letecidade.
Carranca de la Sé nun chores más suobre l passado, baste de gemer! Busca alhá nesses sbarrulhos ua alma tan grande, tan sforciada cumo l tou cuorpo de gigante!
Hai quatrocientos anhos – dás fé? – quatrocientos cumpridos anhos carregas l peso dessa stória!
L sfuorço dun home nun se perde nos sbarrulhos!
Mas tu sós más que un home! Quien sós tu?
Hai quatrocientos anhos cuntemplas, de cada lhado, l Douro i l frezno a passar, scabando ls sous beneiros – las augueiras ou galatones de la tue solidon, de la tue lhibardade, an fin, i nuossa.
Tantas einergias gastas!
Tantos quilobátes que las augas i ls séclos arrastrórun al mar, nesse anterbalo. I tu quedeste! Decedido a cumprir un deber. Quedando oubindo chiar ls ratos i l bornaciegos, nesses canhos, aguantando aguardando que alguien benisse de nuobo dzferir sonidos nou tou uorgano – nesses “úrganos”.
Ye feia la tue máçcara de ébano i ye guapo l tou deber!
Einimitable tue pacéncia!
Lhougo quien sós tu? Feia, fuorte i famosa?
Fuorte! Famosa! E feia!
Ye guapo l tou deber!

José Francisco Fernandes – Padre Zé
01 de Febreiro de 1962

23.4.10

Miranda II

... cuntinuaçon ...
Chegou l die de l nuosso eisame. Alhebantei-me cedo cuntento, sastifeito!
La camarada puso-se a camino de la cidade, angordando, cumo an dies de feira, ou romarie.
Al chegar al alto de la Cabreira que adomina la cidade, l praino quebrou-se a ls nuossos pies i aparciu un biston anteiramiente nuobo, suprendiente i horrible.
L termo a la squierda derretie-se an arribas fragosas, por adonde arrogaçaba l Douro, alhá no fondo, cumo serpiente scundida, nun lhaberinto de sbarrulhados.
A cachos sentie-se brabear an roncos xordos i arrastrados que parecien salir de andrento dua desorde, de ls fins de mundo.
Tube mesmo la impression que eilhi acabasse l mundo.
A la nuossa frente l casariu renacentista.
Houbo yá quien acumparasse Miranda a uns currales de cabras i oubeilhas. Na berdade, dou-le ua cierta rezon, até cierto punto, al robés: ye claro!
Cintada ancanhiçada an gordas muralhas bedes l ganado de casas brancas sestiar al sol de Julho; alhá no meio apruma-se graciosa, cumo Pastora sbelta, la Sé, de braços alhebantados.
Deste lhado ls sborrelhados respeitables de l castielho, lembram esses pastores gastos pulas grandes eimbernias, que duran seis meses, i de las calmarias de l berano.
Al transponer l galaton de antrada cortado d’ua strada croneira, nun me detube que nun birasse ls uolhos para baixo, pal abismo facinante, scabado a mius pies, aton çcubri, por marabilha ua fita sberdeada, de la quelor de l lhino, seco, dar la buolta ambaixo de l fraguedo para lhougo se scunder.
La serpiente parecie ancantar-me; se iou me deixasse rebolcar!...
Matracas abistou nesta borda un sguicho de escuma, mas era ua azeinha colmeada de palha.
Iou senti naqueilha agonie l coraçon apertado, de quei!
De ls abismos i fraguedos adonde habitan las aiglas, solo abistadas pulas cuostas?
Pul mapa iou cuincie l riu Douro cume ls dedos de la mano. Corrie ls sous afluentes cul andicador, sien tropieços até de uolhos cerrados.
Miedo de quei? De la cidade de muralhas majestosas i torreones?
Nun serie antes, de l eisame?
Si, a miu lhado na sala grande, l Ferraç, miu bezino, antrou a tremer, cumo de maleitas, tanto que la senhora eisaminadora tubo que dezir alto a dá-le coraige:
- Á rapaç, pul amor de Dius, deixa de abanar essa carteira; queda assossegado que, naide te bai a fazer mal; nun bengas acá cun miedos, que nun bamos a quemer a naide!
Senti alíbio i nun fui solo! Tantos eisames yá passei.
Matracas mal afertunado, durante la redaçon, arramou, por afelcidade la tinta na carteira, l que fizo aparcer la pauta de la proba, un grande mapa çcuincido, de algun país que inda nun eisiste.
Mal abinturada redaçon i mal abinturada geografie!
No anterbalo fumos a jogar para junto de l poço de l castielho.
Este tem al redor uas scaleiras an caracol para abaixar. Un apostou que habie de porbar l’auga fresquita, tan fonda que mal se bie.
Deixou cair ua piedra i tamien cuçpinha para remexer las óndias que fazíssen raiados.
Bistes? Alhá baixo, a relhuzir?
Matracas sintado no parapeito ditou un problema deficílimo a un liceísta de la sue eidade que falaba grabe por tener bibido siempre no meio de la cidade.
Apostou que naide de la cidade l resuolbe! Naide! Alboriou!
Trés bicas stan a correr para un chafariç. Ua inche-lo nua hora, outra an dues, i outra an trés, ua de cada beç. An quanto tiempo l anchirán se corríren juntas?
Tocou. L cuntíno bieno a crabear ls resultados a la puorta. Demos un poulo de alegrie, mas lhougo la retebimos para ler un risco brumeilho suobre l nome de Manuel Loureiro Matracas i alantre na nota de reprobaçon.
An atençon resulbimos nun botar foguetes cume staba cumbinado, esse die.
Matracas de aspeto brutico, mas no fondo buono coraçon, dixo que nun se amportaba, que podiemos atirar foguetes que fazíssemos la nuossa fiesta, que nun se sentirie oufendido.
Dues lhágrimas teimosas rodórun pula cara i apartou-se eimocionado para trás de l cureto. Nós zbiemos-mos a cumbinar. Que nó, que nun chiçcariemos foguetes.
Afinal an ningun treato ou soto habie daqueilha mercadorie i para más precisiaba d’ua licéncia.
- Arrebuçados, queremos arrebuçados!

... ten cuntinuaçon ...

20.4.10

Miranda

- Anton, stás buono?
- Buono! I tu?
- Tamien sien nobidade!
- I la família, toda rija?
- Tamien, sien peligro: naide quier morrer.
- Baia! Baia! Pus anton más bal!
- I donde benes?
- Bengo de Miranda.
La cumbersa passou-se al pie de mi. Era la sigunda ou terceira beç que me acordaba de oubir falar na Miranda.
Puls modos debie tratar-se d’ua tierra amportante, eilhi para aqueilhes lhados.
Yá doutra feita tenie oubido amentar na “repartiçon de Miranda” adonde se falaba grabe ou fidalgo, al cuntrairo de la nuossa fala más simpres i por esso me parecie más natural!
- Gustaba de ber a Miranda! Dizen que ye cidade! Aposte que ye guapa!...
- Nien por esso! Si ua cidade, assi… más ou menos – atalhou miu tiu: - Tu yá biste la bila spanhola de Alcanhiças?
- Bi, no die de ls touros. Ten ua praça no meio i uas casas altas cun barandas i un pequeinho jardin a la antrada.
- Pus por ende yá sacas ua eideia! Miranda nien chega al rastro de Alcanhiças.
- Alcanhiças bal muito más – acrecentou mie tie. Ten moaige, quemércios i letecidade de nuite.
- Se tirarmos la sé a Miranda, aton tamien te dou rezon – amentou alguien de l munton. Mirai que la Sé ye cousa amportante. Aposto que nien Lisboua ou l Porto cuntan c’ua eigreija tás guapa!
- La Sé acá para mi ten ua cousa digna de aprécio, i que bal la pena: aqueilha carranca que sustén “ ls uorganos”.
- Á! “ls uorganos” cumo tocában bien quando, yá bai para uns anhos – dás fé Marie? – se ourganizou la prociçon de las Nuossas Senhoras de l cunceilho a pedir chuba. Oubírun-se trompetas por toda la cidade.
- Dou fé mui bien. Chobiu tanto que demoremos trés dies sien tornar, que nun se rumpie puls caminos.
- Mirai! Tanta era l’auga!
Esta cumbersa passou-se no cerrado de las Chanas nun die de l més de San Juan quando fumos a cargar feno! Miranda quedaba para aqueilhes lhados.
Ora iou cuincie cumo dixe, Alcanhiças. Truxe d’alhá muitos jornales cun retratos que espetei na cabeceira de la cama.
Truxe tapones feitos a máquina i lhatas screbidas, lhatas de escabeche i pelotas de caramelos presas nun eilástico!
Mas de Miranda… yá bieno dalgua cousa buona?
.     Si, de Miranda
.     benien las licéncias
.     benien las pagadas
.     i ls manifestos;
.     benien las guias pa ls animales
.     i las chapas pa ls carros;
.     las suortes pa ls moços
.     i las taxas i las cadernetas;
.     benien ls acusos, cuntribuiçoes i multas;
.     einfantários i transmissiones;
.     benien ls registros: sisas, décimas;
.     relaxes
.     i ls juros de demora.
Moras que amargan que nien brunhos berdes. I l probe diabro que tebir l gusto de quemer pus que aguante.
Ora todo esto se pagaba puls uolhos de la cara!
Benie por fin la temida Guarda Republicana.
Ls garoticos rotos, al bé-la scundien-se an casa ou atrás de las saias de la mai.
Las ties parában cul feixe, ou de cántaro na mano, quando benien de la fuonte. Pasmaban-se a mirar sérias, al bé-la atrabessar ancuiraciada, relhuziente, oinipotiente.
L lhabrador no die marcado, chobisse, nebasse ou fazisse sol, tomaba de la burra arracionada arresignada cumpanheira de biaije, la buona jumenta que çpensaba licenças, i el alhá percorrie, a cabalho, trés, quatro léguas puxadas… até Miranda!
A la nuite regressaba culs bolsos bazios mas libre, libre para outra i semelhantes.
Lhieban-mos todo, mal mos deixan çton para mercar: ua camisa, ua bara de pardo, ua saca de guano; i uns lharegos quein chega a eilhes? Todo comen esses de Miranda, todo lhieba sumiço.
- Houbo un chabasco de lhéngua amprudiente i torpe que se astrebiu a falar cumo pensaba no jerico i lhougo quemiu pula maquila gorda: ye natural!
- Bien feita! – dezien-le ls outros – quien te manda ser fáto nien torpe. Cun esses de uolho guicho debe de se ousar respeito i eiducaçon. Se nó, cadena!
I la lhibardade ye tan guapa! Nó, que la lhibardade, senhor, ye mui guapa!
Miranda nó! Cumo poderie ser guapa ua cidade, cun mil habitantes, donde mos chega todo esto?
De Alcanhiças, al menos, para alhá de tapones i albarcas, de cacharros i caramelos chega-mos algo de buono! Las panas de cuntrabando, por eisemplo, trocadas por farrapos.
I ambuolto chegórun eideias abançadas cun demónio na barriga que apuis stouran na más sangrenta reboluçon, que las Spanhas nunca biran.
Dezien: quien quier çapatos, bai al çapateiro que los dá de graça. Quien quier ua jaqueta ou calças nuobas, eirá al alfaiate, ua reilha, al ferreiro, un remédio al boticário. Todos dan, todos trabalhan i naide paga. La Spanha bai a tornar-se un paraiso, portuguesitos!
Beni a ber! I quien quejir acender un cigarro na paç i assossego i amor de la família? Si, aton que baia para ls einfiernos de Belzebu que l deia lhume! Arrespundiran ls nuossos. Até esto mos chegaba de la assossegada bila de Alcanhiças, cuincida, na stória de ls purmeiros reis, puls tratados de paç. Até esto d’alhá mos benie (l que amostra que siempre para delantre ye l progresso).
De Miranda!... quei?
Un die chegou a la puorta de la scuola un fidalgote mui angurbatado, a cabalho, nua potra.
Nós jogábamos a la segurielha culs piones.
El sien se abaixar preguntou: -por favor, dizia-me onde fica a casa tal?
Matracas, mui lampeiro, sien perder la lhaçada arrespundiu, acenhando: - “par’ende”.
- Obrigado! Bocé anda aqui nesta scola?
- Ando!
- Na quarta classe?
- Si.
- E já encontrou alguma vez nos livros de leitura: “par’ende”?!!!
- Se soubisse nun bos tenie andicado! Estes de Miranda!... Solo mos trazen esto. Fizo zolar l pion i cuntinou jogando.

... ten cuntinuaçon ...
José Francisco Fernandes - Padre Zé
01 de Febreiro de 1962

18.4.10

Pa la Romarie

- Atón, siempre se bai al Naso.
- Inda stamos a ber. I tu?
- Para dezir la berdade, tamien inda nun sei. Bé-lo ende que si, ou bé-lo ende que nó!
- Mas a la feira bás?
- Percisaba de ir, percisaba, mas cume nun tengo nada para bender, nien denheiro para mercar… quedaremos assi! Se nó repara: die seis ye feira de ls burros (claro, salbo seia). Die siete, la de las bacas. Die uito, de la giente. Agora cume faltan las patacas!..
- Atón bai no die seis!...
- Nó, que nun tengo alhá parientes desses. Irei, se fur, no die uito; talbeç inda arrange quien me deia ua posta de bitela i, cun uns copos deiqui i deilhi … yá nun cuorre mal!
- Nesse causo, á! Home, fazemos sociedade i bamos juntos.
- Atón bamos!
Esta cumbersa passaba-se an fins de Agosto, nun lhugar assossegado de l nordeste stramuntano.
Naso ye nessas paraiges ua palabra, animadora, mui asparcida culs prémios que se dan a ls ninos por studar las liçones. Para muitos outros, Naso ye un acalmador cumo pírulas preciosas apuis dun grande trabalho de nuite. Acabórun las lhimpas, l cobradeiro de cabeças. Que çcanso!
Ir an romarie a la Senhora de l Naso, bejitar l santuairo, i oubir l sermon, ber las capielhas al redor i las nobidades de la feira, sintar-se de qualquiera maneira a la selombra dun freixo ou dun carbalho ou de l mesmo santuairo, sacar de la merenda: un galho assado, un chouriço mirandés, arregá-lo cun bino agre que mata la sede dun golo; oubir i admirar dues bandas a tocar al dzafio que até fazen poular i a la nuite l arraial cul foguetes de lhágrimas, que alumian léguas al redor; falar cun parientes de loinge, oubir i trocar las amboras; ber modas, gientes, questumes, todo esto que se chama romarie de l Naso pon las cabeças moças nun remolino boubo. I atrás de ls moços alhá ban tamien ls homes sérios i ls bielhos de pierna coxa a dous passos de l barranco. Montan na burra i, ála! A la romarie. La romarie sastifai todos ls gustos i eidades. Eilhes, ls romeiros bénen chegando de loinge, de todos ls lhados, cobiertos de puolo, de las grandes caminadas. Usan de todos ls stransportes, dzde l moderno altemoble a la camioneta de carga i al atrelado i dzde l bíblico jumento até l carro de S. Francisco, l más ousado que son ls dous pies.
- Á mai! deixai-me ir al arraial!
- Nun te deixo ir.
- Deixai-me ir a la fiesta.
- A la fiesta iremos juntos se tu fazires eisame.
Fui.
L Santuairo alhebanta-se nun sierro al abilado, boleado que ten de cumprido alguns quilontros por un meio más ou menos de lhargo i que, na direçón norte sul debide las freguesies de la Pruoba i Zenízio mirando a la esquierda ou poniente l lhugar de la Speciosa. Pruoba i Speciosa fazírun de l santuairo an tiempos idos, un meio de zangas, tebírun lhuitas sérias pula sue posse, pul que tubo que se meter la outeridade. No final la Pruoba por ser maior, siempre lhebou de bencida, mangou: stranportou l marron cinquenta metros para lhá de la eigreija i, cun grandes festanças eilhi mesmo celebrou la bitoriosa façanha, la maior de la stória de l bielho lhugar. Stou portanto nas marras de la Pruoba, na lhinha que debide las ourrietas de l Frezno i de l Angueira. De l punto más alto çcubre-se un panorama grandioso i respira-se un aire lebíssimo que parece benir de l cielo clarico i azul; perde-se la bista nos diçtantes hourizontes formados nas sierras afumadas i andçtintas. Mira al loinge las sierras de Nogueira, Bornes, Montesinho, i Culuebra na Spanha, cubierta de niebe.
Para cá deste grande redundel alhebantan-se cabeços arredundados, a ls quadros de monte i lhaboura scaldante, cun restrolhos amarelhentos, requeimados de l sol. Eiqui i eilhi, loinge nas ourrietas fondas, muntones de casório antre manhuços de berdura a dá-le selombra. L freixo, l carbalho i carrasco cobran la monotonie eiremítica de las praineiras i lhadeiras, adoçando-la de matizes bariantes, d’ua risica reserbada. Por esso la giente ye tamien reserbada. A norte a atrabessar, la sierra de la raia ou Cicuiro cula capelhica de la Senhora de la Lhuç no punto más alto, sobranceira a Leon.
Senhora de la Lhuç, Senhora de l Naso i Senhora de la Sierra son, no dezir de l pobo, trés armanas bien dadas d’antre las outras bezinas, al todo siete que cronan ls cabeços de la grande redundeza.
No die uito de Setembro las buonas armanas alegran-se i alegran ls montes de fiesta: cumbersan uas pa las outras cun lhágrimas relhuzientes de arraial.
Ye guapa esta armandade! I nós sous filhos bamos cun fé a assestir a la cumbersa santa de la tierra cul cielo, nesta nuite de santa Birge renacida.
- Yá dixe: nun bás al arraial. Solo te deixo ir a la fiesta, se fazires l eisame.
- Diç que l Sr. Bispo de Bregáncia quier acabar cul arraial no Naso.
- I nun farie nada mal. Andan ls garotos atrás de las canhas de ls foguetes i quantas bezes eilhes stouran nas manos, cume iou yá bi. Ten habido desordes nessa nuite de stróina, zgrácias que nun se scríben. Nun farie nada mal se acabasse.
- I que ten que ber l Sr. Bispo cul arraial. L pobo quier-se adebertir.
Apuis na fiesta, alhá haberá quein cumpra las sues promessas, dando buoltas de joeilhos, al redor de la eigreija cun alqueires de centeno a las cuostas. Hai missas, oufícios, cunfissiones a la farta. Mas deixai: N. Senhora quier alegrie. Deixai.
- Pus si, nesse antretiempo l arraial que dantes se fazie na nuite de siete para uito, passou a fazer-se de uito para nuobe.
- I cun esso?
- Perdiu muito!
- Outros dizen que nun perdiu nada!
- Seia cumo fur.
- Nun bás al arraial yá te dixe, mas solo a la fiesta.
Iou staba radiante, nesse die. Nien sentie l cansácio. Cun uito çtones atados no lhenço, no bolso falso de la jaqueta (nun ls baia a perder ou alguien inda me ls roube) dei buolta al terreiro, para ber las nobidades, la chamada feira de ls homes. Que antuolhadas ubas queloradas i brebas de Sendin eiqui nesta tienda. Naqueilha más alhá licores dourados; i la ruodra de la fertuna (de la zgrácia tantas bezes, cunsante)… Nó, debo poupar ls çtones pal die anteiro i inda oufrecer a la Senhora, i mercar arrebuçados i porbar de la balanciga i de las ubas i de ls licores. Han de chegar. Mas se iou jogasse naqueilha ruodra de la fertuna, aqueilha faquita de meia lhuna fazie-me proua… i jeito. Bou-me solo a arrimar.
Repican las campanas an fiesta. Entro no santuairo spacioso, antes que se incha de giente a ls ancuntrones. Lhougo a la puorta de l lhado squierdo, beio retratada la lhienda de l crestiano i de l mouro de que tantas bezes oubi falar an pequeinho. Alhá stá l moumetano façanhudo de cemitarra ira dreita.
Nos tiempos de la recunquista un mouro apresou un crestiano. Metiu-lo nua arca apeado de pies i manos; apuis puso-se a camino cun el nua carroça, para tierras de mourarie. L crestiano rezou, rezou muito i fizo promessas. Pormetiu fazer un santuairo a la Rainha Celeste, se l balisse i junto abrir un poço para matar la sede a ls pelegrinos. L mouro sintado na arca, drumiu-se, perdiu-se i, quando se acordou oubiu ua doce melodie de campanas dztantes, a tocar.
- Crestiano, pregunta alborotado – crestiano que stás andrento dessa arca, di-me se na tue tierra hai cincerros. Querie dezir campanas.
- Hai, si. I tocan tal i qual cumo estes.
- Pus se na tue tierra hai cincerros, an tue tierra antramos.
Trocórun-se ls papeles. L mouro passou deilhi por delantre a catibo de l crestiano, este alhebantou l santuairo naquel mesmo lhugar de las campanas i oubrigou l anfiel, scrabo, a abrir ua lhagona pa ls animales i abrir pa ls homes un poço tan fondo, trinta ou quarenta metros até achar auga. Auga fresquita na secura de l sierro, nunca se acaba: l copo a çton. Tantas bezes porbei deilha. Tantas bezes me sintei nos resguardos de l poço feitos de cantarie. Deilhi scuitei ls fados de la tentaçon, cantados al dzafio antre un nano de dous palmos a las cuostas dun latagon i un fadista, de ls lhados de Palaçuolo. Quaije todos acudien pul nano i acentuaban cun risicas ls sainetes de caçoada jogada dun pal outro. A ber cual de ls dous purmeiro se calha. Tamien gustaba de saber! Horas i horas a filo, al sonido dedelhado de guitarra ou gaita de beiços, ls trobadores de fado, pegan na deixa i a las bezes na rima, truocen a sou modo mas nun cobran.
Alhá stourou un foguete. Sal la prociçon. Las bandas de Chacim Eizeda ou Miranda marcan l andamento deboto, solo anterrumpido pul repetido restralhar de l fuogo. Gordos animales i béstias reles golfiadas de la pirotécnica nabegan arrastrados pul aire i la garotada, deiqui i deilhi, cuorre a siete pies a alcançar l troféu daqueilha zoologie de l aire, ye un de ls ancantos que abaixan crecendo i sbaziando fumo ls quales se sparrufan nas touças i se çfázen an papel quelorido. Buonos artistas esses bianenses.
L juntouro afoga, no santuairo i nas capielhas ye neçairo abrir camino, furar la sebe houmana para passar ou salir. Ls moços de lhugares defrentes repican las campanas a cuncurso. Quien eirá a ganhar?
Ls ritmos açuceden-se atressacan-se suobre bincen-se. Conheço mui bien quien tubo la honra de l sigundo lhugar. Usou an carreira todos ls ritmos, de preferéncia l binário, ambulbiu, trocou, fizo ls creciendos i ralintamientos, ls çcansos i ls rumpantes, fuortes i pianos, atirou pa ls aires ua chuba de harmonie a las óndias, ora assossegadas ora an tempestade, ora cun assento i a prepósito cume a marcar un pensamiento, l que espremie culas notas grabes na dreita anquanto cula squierda poulaba nun baile cuntento.
Antretanto ls mius uito çtones acá tlincan inda. Bou a fazer la fiesta. Darei dalguns a la Senhora an troca dun retrato para poner no chapéu para que, a la tardechica quando buolba todos puodan dezir: bem de l Naso. La Senhora quedará cuntenta. Tem l manto azul de tamanho más que natural todo acolchonado de notas lisas. Guarda nas tulhas muolas de pan: trigo i centeno. Tem propiedades rendosas: lhameiras, cortinas i lotes.
Mas an paga quanta alegrie i abundáncia çtribui puls sous filhos desta region stramuntana. Léguas i léguas al redor, até na Spanha, quien nun conhece la Senhora de l Naso? Quien nun tem un retrato puosto a la cabeceira. Eilha ye médica de ls alredores, adonde outro nun hai nun raio de bárias léguas ye adbogada i rainha nuossa. Cuntenta-se tan solo cula gratidon de ls sous filhos, alguas smolas i debuçones manada fé no çcutida ( mas talbeç nien siempre sclarecida) dun pobo houmilde, dun pobo sufredor i buono que La i tembra cun afeto filial.
Adeus Senhora de l Naso, se tubir salude, pal anho tornarei.

José Francisco Fernandes – Padre Zé
Porto, 9 de Dezembre de 1961

15.4.10

L Galhinácio de Matracas

Senhor Pursor, nós beniemos a pedir licença para l oufrecer un galho an die de “deimingo gordo”. Era l questume de todos. L Senhor Pursor marmurou un: “nó, oubrigado” que nós traduzimos cumo un si. No “deimingo gordo” pula manhana, stábamos todos al pie de la scuola. Que cunsuolo! Ls lhibros nesse die nun pesaban i iou quaije me preguntaba se nun me tenerie anganhado antrando na sala sien cerrona al ombro. Nun me anganhei, nó. Matracas, eixecutor, yá eilhi staba a miu lhado a pedir-me l denheiro para acabar de pagar. Será neçairo cuntan que iou tenie l oufício de tesoureiro, ua spéce de menistro de las finanças aquel estudante.
Na chamada Moral ou Euducaçón Cíbica studórun-se ls menistérios. A mi tocou-me la pasta de las finanças. L galho staba anfitado pulas nuossas cumpanheiras, a primor, nó propiamente na casa de Matracas, mas acerca dun cabanhal, anriba d’ua padiola cubierta de rendas, lhaços, fitas. Faltaba mercar arrebuçados i stouretes para aquilho ser de arrebenta i nun quedar atrás de ls anhos atrasiados. Matracas alhá se ancargou de todo i nun perdiu. Corrimos l lhugar cume an prociçón, cul galho na padiola, pal Sr. Pursor. “Bombas” stourórun de las paredes i altos, dun i doutro lhado, cun grandes bózios. Gastou-se nesto toda la manhana, sien priessas. Priessas naqueilha eidade? Para quei se la bida era tan cumprida! Cheguemos por fin a la scuola. L Sr. Pursor aguardaba-mos cuntento. Mandou çtribuir bolhos i arrebuçados i, nun me acordo bien, mas se nun me anganho, tamien licores. Quedaba-le caro. Iou guardei dous bolhos para mius armanicos i para maizica i chuchei dalguns arrebuçados cun gusto. Estes eran melhores que ls outros que mos daba aqueilha “nina de ls cinco uolhos” ou “santa luzia” que nós por fin çurripiemos i scundimos nua frincha. Eideia de Matracas. Hoije, nó, l Sr. Pursor staba quaise a rir, mas siempre mercedor i senhor de l sou lhugar.
Ampeçórun las trobas. Nabiças zdobrou un capacete de papel que spetou na cabeça até l quegote i puso-se a ancarreirar bersos i más bersos “àquelas penas bonitas, áquela crista bermelha, àquelas prumas douradas aquelas esporas de cabalheiros, etc., etc.
Por sue beç saliu-se Matracas, repentista i declamou repimponado un amprobiso de la sue cabeça i de l momento:
Este galo galharóç
Tem patas de retrós
Quando bai para o polheiro
Bai cantando para bós
Cantando – eimendei iou, cun palabras brandas, mas el ye que botou ua risa restralhada pul realismo einédito, ou melhor surrealismo anbersando un outro berbo que ampeça no mesmo sonido i que la decéncia i l respeito nun deixa que seia eiqui puosto. Arrematando: l galho de Matracas que nunca poderie dar uobos, darie qualquiera cousa menos poética cume sustantibos amprudientes. Andábamos an gramática a daprander ls graus i el tubo la feliç suorte de lhebar muita reguada de calcer ou seian bolhos para topar algua cousa neilhes. Brabo Matracas, brabíssimo. Çculpa que te diga: siempre saliste un brutico. Pus até mereciste ua cuonta i quedar na stória de ls galhinácios.
L galho nun iba cantando mas cagando.

José Francisco Fernandes – Padre Zé
26/11/1962

13.4.10

Raia

Alcídio Simprício Terrón Madureira, ou solo Madureira, era naquel tiempo un guarda fiscal de sous binte siete anhos guichos i mimosos. Usaba un bigotico de acento cincunflexo que abrie todo quando Terrón Madureira se arreganhaba a rir cumo un lhonas perdido. Tenie grácia l pándigo de l madureira.
Naquel tiempo quemandaba la caseta ou Quartel de la Raia un sigundo cabo que daba pul nome de Demingos Brandão, home sério de spessa bigoteira, antradote de eidade, dreito, statura mediana. Dambos eran quelorados. L cabo, daba sustento a ua grande família: tenie que anchir muitas bocas sien fondo que nun le dában tiempo a perder-se an cumbersas mofosas. A las bezes bie-se i deseaba-se. Botaba l serbício i andicaçones a prepósito, scalaba la patrulha: cumprie i ála, para casa. De passaige siempre, mas, botaba un dito sentencioso, ua grácia, un saludo i olé! Tenie an buona medida, cumo chefe, l don de la lei cuncenciosa. Era l que se chama un home de questumes, trabalhador, sien priessas, fino, abisado i respeitador i, a bien dezir tamien, senhor de l sou nariç i dar-se al respeito a toda la giente. Era bé-lo a passar a camino de la sue tierra, sítio adonde bibie, nó ralas bezes armado cun dues fogaças para matar la fome al ganado de filhos. Alhá bai l Sr. Demingos Brandão, cabo de la guarda fiscal.
Alcídio Simprício Terrón Madureira, si, na squina cuntraira, quedaba no quartel de plantón a ber las horas a passar?! Esso quedaba mas era la selombra del. Mal l cabo dzaparcie na lhomba, Madureira daba dous poulos, anfilaba l capote i toca para casa, noutro lhugar más loinge. Antes, tenie todo l cuidado de ancerrar bien las pitas que ls guardas tenien juntos i nun se çquecie de cuntar ls uobos para ua frejolada: pensaba antón, an quantos uobos habie tirado na raia.
Ei bai el a camino. Pie lebe galgueba l camino an meia hora, inda l cabo nun habie feito metade, yá l praça pisaba la soleira de la puorta i çfechaba ua graçola a quien purmeiro bisse ou fusse la tie ou la garota, ua pequerruchuca dzanquieta que inda andaba de gatas.
Buonos tiempos aqueilhes, poucas canseiras!
Meia fogaça de pán, por die, era más que bastante para andar alegre i tirar inda fuorças para, de nuite a la ida i benida, cantar puls caminos. Assi bencie l miedo que cunfessaba, agabando-se, nunca l tener bido.
- miedo de quei? De las buostas paradas? De la cruja ou bornaciego? De l semitério, de ls muortos? Iou? Nien de ls bibos!
Solo tengo miedo que me falte la fogaça i uns tragos de augardiente de manhana, pal desaiuno, i a las bezes l friu. Nó que eilhes ruoben.
Ye cierto que naqueilhas paraiges rondaban lhobos i estes storbeiros, medruncos de die, que até se scápan de ls berreios dun nino – cobardos – naqueilhas horas de la nuite, pulas ancruzelhadas, podien traer ua surpresa mui pouco agradable.
Storbeiros digo i brincalhones: si, porque la nuite fui feita por Dius, percisamente, pal lhobo se adbertir de qualquiera maneira i, cumo criatura que nun tem lhugar al sol, gozar al menos, a la lhuç de las streilhas, la sue lhibardade.
Parecen dues streilhas ls sous uolhos: i gela tanto! Aquel mirar. Toma de surpresa l caminante i acumpanha-lo a ua cierta lunjura, ora al lhado cumo un perro, ora atrás (óstias!) ora delantre. A las bezes dá-le la tuntura de parar, sintar-se no meio de l camino arreganhando la bocarra, cumo ua fóia, amostrando la dentuça afilada adonde sálen ls caneiros cumo facas de aço, relhamposas.
Coraige! Nesses sfregante nun bireis cuostas.
Aguantai-bos. Benci l miedo cun outro maior bien einebitable que serie l de fugir. Nien l aticeis. Amostrai solo que teneis sangre friu i pacéncia, mirai-lo de frente i boziai, até que sue real senhoria, juiç de la nuite, se resuolba a dzampedir la passaige l que fai cun aires de caçoada i bagaroso… que cuntrasta cun ls buossos nérbios todos an feixe, cumo nun feixe teneis pelos – assi cunfessaba Madureira i ye berdadeiro.
- Mas tu biste-lo?
- Más que ua beç: fareou-me i acumpanhou-me cume un perro de guarda. No purmeiro ramal, pouco sastifeito, anojado de la cumpanha, tube cuidado de l eibitar zbiando-me a la dreita pul camino que lhieba al lhugar de l nuosso cabo. Desse staba iou siguro que naqueilha hora drumie cume un animal. Atrabessei l lhugar julgando-me çafo. Mas de l outro lhado l animalaço torna-me a farear, eilhi al salir d’uas huortas. Berdade berdadeira, senti uns arrepelos cumo queluobras passar-me de alto a baixo. Se eilhi tebisse ua arma! Tenie-la deixado no quartel para que nun me pesasse. Mas apuis senti la falta de peso. Cun todo l lhobo ye cobardo i solo ataca ls más cobardos que el. Senti bien ganas de tornar para trás, senti, mas atón…
Esta cumbersa chegou a ls oubidos de l cabo.
- Á si! Pus deixa star, miu Madureira, que quien te bai a acaçar sou iou! Mas apuis pensou melhor: - Quedará zgraciado, probe diabo! Melhor deixá-lo. Tu nada biste, nada sabes.
Esta agora a tirar-le la meia fogaça de cada die.
Yá sabemos que Demingos Brandão gastaba dues fogaças bien pesadas. – I gustabas tu Brandão que alguien te salisse a camino i te las roubasse?
- Nun bi, tamien nun sei. Mas se l apanho cula mano no saco. Deilhi an delantre cuntentaba-se a acunselhar an giral: tino i muito tino, tento na miolheira porque… i nun adelantraba más.
Muito tento na bola tebimos nés todos, miu cabo – remorcou a retrucar l fala barato de Madureira – nós somos serbidores de l Stado ye bien que se saiba. Rica bida esta, cuntinou el palrando solo, passar l die sintado na sierra, a ber atrabessar las fromigas i ls cuntrabandistas gelados de miedo nos palheiros.
Naqueilha madrugada, Alcídio Simprício Terrón Madureira alhebantou-se al purmeiro cantar de l galho para tornar al quartel. Caminou rés-bés al lhado de la raia, por atalhos cuincidos, batendo l tacón. A un momentico parou afinando l oubido. Pareciu scuitar un sonido baixico nas touças i nun se anganhou. Cosiu-se culas urzeiras, parou la respiraçón i puso-se a spreita. Que será? Que nun será? Nisto oubiu algo loinge bozes de giente. Eran eilhes: ls cuntrabandistas. Lhougo eilhes. Se fussen fromigas. Que lhembráncia tebiran de se atrabessar no camino, i lhougo nas mies barbas… cun tanta lhargueza parende!... ouserba melhor i nota an purmeiro dous búltios de personas abançar de la touça guardando ua junta de buis. Un de ls homes torna atrás i salen más dous cun nuoba junta, outra i outra. Al todo quatro homes i quatro juntas de bacas. Parórun. Houbo un cunseilho brebe an boç baixa, a rematar l plano. Que fazer?
Nun clarón, Madureira androminou l sou.
Manos a la obra. Al menos un susto han de lhebar, para que saiban, dzabergonhados! De antre nós alguien tenerá que fugir. Apuso-se i ampeça bozeando: - Guardas, guardas eiqui! Á binte siete anda depriessa que tenemos taluda! Muda de boç i direçón: - Yá bou ende, yá bou miu cabo. – Á nobenta i seis pega tu dende. Agarra, agarra, á trinta i trés agarra. Nuoba boç, outro modo de falar noutra direçón: - Ende, ende, pega pega, nun ls deixes scapar. Á trinta i trés, á nobenta i seis cuorre atrás, binte siete. Á tratantes se ls apanho. Mira que scápan, cuorre, cuorre, apanha, apanha. Nun ls deixes, nun lhargues. Un quelóquio. A fazer baile, “Fala Barato” balie un squadrón. Para oumentar l resultado puso cantabouços a rebolcos na barreira. Ls retombos fantásticos acordaban la solidón de la nuite.
Alcídio Simprício Terrón Madureira quedou amo solico de l termo i de la boiada. Cum miedo de un cuontra ataque tocou las bacas apressiado nun sfregante puls touçones que solo el cuincie até de uolhos cerrados.
Culas demoras, clareou l die i nesse antretiempo chega l cabo Brandão al quartel i achou-lo sien naide.
Batiu a la puorta, berreou, dzatinou. Nada, l plantón habie deixado l posto solo.
- Pus miu guapo Madureira desta beç quedas sien pan que te zgrácio. L cabo a dezir esto, cincerico i Madureira arrebantá-le a ls uolhos, çaçamelando cula rica presa que nien l quartel tenie adonde la guardar. Bacas nun son pitas. Demingos Brandão arregalou ls uolhos coçou l bigote amboçou de boca abierta.
Pus claro, miu cabo. Atón achábades guapo un guarda cume iou, drumir repimpado na cama amerosa, rapaç nuobo eiqui no quartel i estes marmanjos destes cuntrabandistas a pisar na raia, para mos dar nas bentas. A mi? Nas bentas lhebórun eilhes! I fizo rir l sou cabo i quantos scuitórun. Screbiu-se l auto de apreensón i de la justeficaçón de serbício para çtino de la legalidade. Antrórun alguas crouas no bolso cul nome de eimelumentos. Mas este promenor ye claro nun cuntaba quando, cun grande stardalhaço l praça de la Caseta de la Raia Alcídio Simprício Terrón Madureira gababa las sues façanhas i las siete partidas que nunca fizo. L sigundo cabo Demingos Brandão, por buonos serbícios prestados a la Fazienda, fui promobido a purmeiro i an pouco tiempo reformado cun buona fuolha. Madureira al cuntrairo nunca saliu de marcar passo cume suldado de la guarda i dezie muitas bezes: naquel tiempo l cabo Brandão gastaba dues fogaças de pan por die i, iou fazie la fiesta cun meia. Agora el reformou-se, dou amprego a la famíla i chega-le meia i sou iou que gasto dues i nun me remedeio.
Beio-me para sacar ls pies de la lhama. I á! Marabilha quando me sinto assossegado i quando stou de plantón. Eiqui se ganha i eiqui se sume. Cume las bidas se demudan.


José Francisco Fernandes - Padre Zé
Porto, 17 de Deziembre de 1961

11.4.10

L Tonto

Alhá ben Tiu Leandro Calhau, tremelicando, cumponendo l sou caiato. Pies çcalços anchados, las roupas sfarrapadas amostran bien que nel secoran hai muito ls gustos de bibir. Las greinhas brancas an beneiro no quegote dán le ua parcença d’ua eidade abançada quando na berdade Tiu Leandro mal ampeça a baixar la cuosta … de la bida.
La garotada parou de pinotear, de repente i ampeçou a segredar: - L tonto! Mira l tonto, l tonto! …
Tiu Leandro Calhau sintou-se nun cepo arredado de l mundo moço que le parecie un suonho a léguas i eirreal. Sorbiu ua malga de caldo que l apresentou al pie de la puorta Tie Cacilda i retomou l sou camino an frente.
- Mira l tonto! L tonto. La garotada seguie alhebantando la boç, atrás del. Tie Cacilda nun cunsegui quedar quieta i ralhou cun boç de mando:
- Garotos, que pouca bergonha? Nun sabeis tener respeito? Canalha? Malcriados!
Tiu Calhau dzaparciu na rebuolta i la garotada cuntinou no dibertimiento, a jogar l “caldeirico”, cumo antes! Cunsistie este jogo an poner ua guelhada no suolo i atirá-le cun outra i acertar. Quien fazisse resbalar esta sigunda más loinge, salie ganhador. An beç d’ua guelhada tamien podie ser ua caiata. I este era l causo.
Manuel Lé apartou-se de ls outros i chegou al pie de Tie Cacilda que questuraba a la soleira de la puorta. Eilha chena de bundade aporbeitou la oucasion para dar abisos:
- Para outra beç tomai fé, nun debeis de bos meter culs bielhos! I menos cun Tiu Calhau … el nun ye tonto, mas un home que muito sufriu!
I ampeçou a cuntar la cuonta.
An pouco rato la garotada se fui arrimando. Fazíran ruoda: uns de pie, outros sintados nos carcanhales, spinduraban-se ls beiços.
Tiu Antonho Juan, un bielho que eilhi habie acaçado l sol de la tarde, spechucou la mimória de la buona senhora, lembrando alguas passaiges. L Passado i l Presente falando al Feturo.
Tiu Leandro Calhau era un home de negócio, home bastante sério, feirante que andaba de tierra an tierra a bender cargas i a trocar centeno! Cun dues mulas, ála! Habie-se apegado a todo cunsante l tiempo. Bieno a necitar de denheiro i nun tubo melhor maneira de arranjá-lo, se nó trocando las mulas por dous burros balientes i recebie an pagas inda ua gorda maquila. Mas no die que fui a spurmentar ls jumentos, estes nun dóran, cume speraba, debida cuonta de l recado. atrancado no camino antre lhamas i silbas, Tiu Calhau dzasperou. Sentiu l sangre chubir a la cabeça, aguemitando pulas gorjas pulgas i carbalhos.
Quedou cume l cemacre!
Jurou i tresjurou que habie sido anganhado pul Granjo (assi se chamaba l parceiro de la troca). Aquel bandido! I que, ou se derramarie l cuntrato ou antón … Tán cierto cume iou ser Calhau … Eiqui ou se derrama ou tenemos-las putas. Bai a saber cun quien trata, bardino, traste, mala rés. I outros nomes assi.
Ralhoran ls dous, deziran quelobras i lhagartos i tropas i farrapos. Pintoran l diabo no lhugar. Mas l Granjo nun tornou atrás.
- Pus deixa star que …
Deilhi por delantre nunca más se faloran. Quedoran einemigos i cada cual seguie la sue bida. Tiu Calhau bendiu ls burros i mercou bacas. I deixou l negócio porque la cousa nun andaba.
L cielo habie l dado ua filha adorable la bundosa Malgarida que de pequeinha se fizo boieira, passando la bida pul termo, respirando l aire fresco que l trazie la cara quelorada.
Era manhana de la Ascençón quando se solta la “fuolha”. Bien sabeis que hai dues manos de arada, ua pa ls anhos pares i outra pa ls nones. Naquel anho de 1928 fabricaba-se la mano dreita para lhados de las Chanas i parlhi nun se podien lhebar ls animales até l die de la Ascençón. Nesse die soltou-se aton la “fuolha” ou couto cume l chaman. Repican-se las campanas, de manhana cedo, i todos ls boieiros, a l çpique, abriran la loija de ls animales, para chegar purmeiro. La pequeinha Malgarida acordou un cachico tarde. Espargie-se yá no aire ua música de sonidos de squilas i bozes de boieiros, ambuoltos cun rigaleijos. Passaban muntones cun fatos de deimingo pal termo de l couto. Malgarida, atrasiada, pegou l fardel. Chegou a la loija, puso la mano na aldraba de palo mas lhougo soltou un grito de susto, capaç de regelar la alma!
Hourrible! Un estiraçado no cabanhal, cobierto de ramalhos berdes. Arreculou tembrando i chamando por ajudas. Acudiu giente. Arrimoran-se. Nun hai anganho! L Granjo staba muorto cun seinhas no quegote.
- Acudi! Acudi! Matoran a Granjo. Tiu Calhau fui de ls purmeiros a chegar i a ber.
- Que galdromada agora esta! I lhougo al pie de la mie casa siempre se amanha cada ua! Creciu l ajuntamiento. Las bacas mandou-las soltar pal termo de la “fuolha” i Malgarida que caminasse atrás deilhas. Pensatibo, l coraçón an lhuito, anquanto la natureza i ls páixaros an fiesta alhá seguiu.
Naide tocou no muorto. Bieno l regidor i la guarda republicana, para alhebantar l auto i tirar l cadáber.
Quando Malgarida tornou, achou la casa dzerta i ierma. L pai staba preso.
Chorou, chorou mui ancunsolable. An todo l santo die sien quemer.
L juízio de l pai de Malgarida fizo-se de brebe i nun furan neçairas grandes probas. Todas eran teçtemunhas de que Tiu Calhau tenie repentes de génio! I ua lhéngua afilada. Robie ls fígados al más pintado que se l atrancasse no camino. Naide le las daba; nien l tuorto, nien l dreito. Ls dous nun falaban. L crime dou-se a las puortas de la loija. Al melhor nien tiempo tubo para arrastrar l muorto. Nien tiempo de se scapar. Quedou-se cun aire de spanto para nun criar çcunfianças. Esto dezie-se. Tan buono l Granjo. Un santo! … que mal poderie tener feito al sou algoç, mala béstia! Calhau! …
Todas las probas batiran ciertas. I, alhá bai! Binte siete anhos de degredo! I yá nun tornou a casa, nien sequiera para abraçar, pula última beç la filha adorada, cunsolá-la i dezir que staba einocente, cumo se matou de boziar no tribunal delantre de ls juízes i naide se ancreditou, naide l defendiu, que al menos eilha rezasse. Tornar a casa para quei. Nó, nun le doran esse cunsuolo a la delor tamanha antes de ambarcar pal degredo.
Agora Leandro Calhau ye cume se nun bibisse, bibe nua mazmorra i biste ua marca negra cul númaro 796.
Quein le quejir screbir, há de achá-lo na cadena de Lisboua, adonde, resignado, goza inda pouca lhibardade i çtrai l tiempo trabalhando de carpinteiro.
Mas quien hai ende que s’acorde del. Nien la filha tan sobressaltada. Nien sequiera essa a quien el deseaba eiducar i bé-la ua princesa. Passados dieç anhos, l preso recebiu ua carta deilha, la purmeira, a pedir permissión legal para se casar i cumponer la bida. Inda era menor d’eidade. L pai cula licença mandou-le ua maquila de denheiro de l sou nuobo oufício. Deseando-le que al menos fusse feliç i a terminar – “las bénçãos de Nuosso Senhor i de tue mai que tubo la suorte de bolar pal cielo antes de cuincer la mie dzdita, tu cubran i encaminen no bien”.
Passoran más dous anhos. Naide dada fé que no lhugar habie un home trabalhador i anfeliç chamado Leandro Calhau. Naide falaba nel i inda bien, porque çquecer ye tamien cousa buona quando Dius assi permite. Á! Pudissemos olbidar tanta cousa! Çquecido! Loinge de las bocas de l mundo! … Ningua lhéngua mala le muorde na honra cumo naqueilhes dies quando parece que l Cielo, i la Tierra i l Einfierno se ajuntóran cuontra el, de todos scunjurado.
Bendito seia l siléncio.
L Senhor Bispo de Bregáncia mandou pregar ua mission an toda la diocese, i bieno un missionário Jesuíta ambuolto de grande fama. Las personas ajuntoran-se aqueilhes dies, na eigreija, cume canhonas no redil.
Muitos que bidas habie, nun ponien alhá ls pies, ancantados de la fama ou talbeç de la grácia ou de la nobidade, furan tamien a oubir ls sermones. Era no fin de cena! Mas á! que sermones. Antraban pula alma até l coraçón. Nun cansaban. Ls pastores deixaban ls ganados pal benir a scuitar. Ls perros alhá se ancargarien de guardar las canhonas de l lhobo i esses nun precisiaban se nó de alimento de l cuorpo. Apareciu tamien, ambuolto na capa d’honras, un pastor que nunca habie puosto ls pies no sagrado, a nun ser naquel die quando recebiu las augas de l batismo. L Miguel de la Lhomba. Home seco i mal andonado, nariç de gabilan, gastaba ls anhos no termo metido cun el, loinge de las outras personas. Era l que se chamaba un bicho de l monte falando a las solas cun el.
- Tu hoije porqui?
- A gastar l tiempo.
- I l ganado?
- Stá a buono recado. Deixei-lo antregue a “farrusco” (era l perro).
- Pus bien haias; staba a stranhar: la purmeira beç que te beio por estes lhados.
- Nun me tengo perdido muito por estes sítios. Mas ls afazeres nien siempre deixan.
- Claro! Claro!
L missionairo naqueilha nuite falou de la cunfission i cuntou la parábola de l Filho Pródigo, tán guapa! Cunfessar ye desabafar. Todo mundo ten necidade de se abrir cun alguien para respiro de l’alma. Quantos, para achar paç chegan a cunfessar-se até a quien nun deben, a las árboles, a ls barrancos, até a ls própios einemigos, a las cartas, a ls jornales a las mulhieres de birtude ou sien eilha i al próprio juíç, Miguel de la Lhomba sentie todo esso por grande speriéncia. Ambaixo de la cotra dura de muntanhés, bulhie qualquiera cousa que nun l deixaba dromir assossegado, no eimbierno scuro an casa ou na cabanha. I nó de l friu. Se alta nuite boziaba al lhobo, a boca chena, ye que querie, l más de las bezes, tan solo resfolgar fondo, spantar un pantasma de lhuito que trazie andrento, na arca de l peito, cume un cuorbo, a rober no coraçón.
Ganhou coraige por fin.
… Sua Reberéncia Abade, stou arresolbido a todo. Bou a Miranda a declarar-me a las outeridades, para l librar. Fui iou! Quien matou porque la bítima me habie acusado. No momento de pagar la multa porque las mies canhonas habien saltado un cerrado, jurei de rábia, jurei que las pagarie caras. Aguardei muito tiempo. Él i Calhau anfadoran-se. Aton yá iou podie aguardar sien çcunfianças acuontra Granjo. I de causo pensado arrastrei-lo até la puorta daquel que ye einocente. Leandro Calhau ye einocente de la muorte daquel que fui sou einemigo. Meti-me pul monte cul ganado i naide pensou an mi. I mesmo assi nun me sinto assossegado. Que deberei fazer? Iou bou a la guarda, iou antrego-me i todo se resulbe!
- Armano, diç l sábio cura apuis de grande siléncio, antes de qualquiera resoluçon ye siempre buono pensar. L armano ye cierto, stá oubrigado an cuncéncia a çfazer l mal feito i librar l einocente, mas naide ye oubrigado an cuncéncia a antregar-se a la justícia. L buono nome i la lhibardade son dons einestimables de l Criador e podendo, deben ser salbos. Ecrebi ua carta … ou se me dais permission de buona fé iou usarei deste segredo, lhougo que stebirdes a salbo. Digo se me deixais de buona fé. Deiqui a la raia poucas horas hai de camino. Deixai todo bien cumpuosto. I salbai-bos. Fazei peniténcia dun desterro por buossa gana i bibi al menos loinge honradamente. Antregai buossa alma a la mesericórdia debina i reampeçai ua bida cumpletamente nuoba. Remediai i çquecei l passado, cume Dius tamien çquecerá.
Na última nuite de la mission, l missionairo de l alto de l púlpito fizo ua declaraçon solene.
- Hai doze anhos dou-se nesta tierra un crime de muorte i por el un einocente respundiu i fui cundanado i inda ye bibo. L respunsable de l crime ancarrega-me an sou nome de dezir de l alto de l púlpito la berdade de l feito: que houbo un erro de justícia, i al mesmo tiempo, de tornar a dar al degredado l buono nome i la lhibardade.
Lhougo que las últimas palabras se abafóran no siléncio, un ancuntrón altarado sacudiu la eigreija, cume las óndias d’ua senara suobre un pelubrino.
Faziran-se grandes fiestas quanto Tiu Leandro yá libre, tornou de la cadena. Mas el an buona berdade pouco folgou. Quaije naide l cuincie de tanto haber quedado bielho. Ampeçou a deleriar. Todo na bida parecie un suonho … ls garotos mal-eiducados fazen caçoada del quando bai de lhugar an lhugar … Á que ningun de bós benga a sufrir tanto.
Cousas desta bida: uns rien-se, outros choran. La garotada cuntinou a jogar l “caldeirico”, mas quando Tiu Calhau tornou a passar paróran ls folguedos. Talbeç tamien l tonto an nino houbira jogado cumo eilhes, cula mesma gana, si i cumo eilhes, muitas bezes l tocou a ganhar i a perder. Agora habie perdido todo, até la rezón, que l deixassen an paç! Manuel Zé agarrou la caiata de l jogo, de curaçon resgado, oufreciu-la i biu-se un antigo degredado botar meia risa, cumo a agradecer.

José Francisco Fernandes – Padre Zé
Porto, 24 de Nobiembre de 1961
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Buonas tardes
i buonas tuntarias